Papa do Mundo
Hoje, o meu coração está em luto.
Ontem, estava doente, sentada na minha sala à espera da médica ao domicílio. Liguei a televisão, talvez para me distrair um pouco, e estavam a dar algo sobre o Papa — diziam que estava doente. E naquele momento, senti algo estranho, uma intuição súbita, quase silenciosa, que me disse: o Papa Francisco morreu. Mas não. Naquele instante ainda não tinha morrido. Só mais tarde, algumas horas depois, é que veio a confirmação.
Que estranha esta intuição. E que fundo ela me tocou.
O Papa Francisco morreu. E é um dia muito triste para mim. Para os católicos. Para os não católicos. Para todos os que, de alguma forma, encontraram nele um símbolo de compaixão, coragem e mudança.
Fui criada na Igreja Católica. Mas quando o meu pai morreu, a minha fé estilhaçou-se. Não a perdi de forma dramática, apenas… afastou-se de mim. Tornou-se pequena, desbotada, irrelevante. E depois, anos mais tarde, apareceu o Papa Francisco. Um homem que não precisava de levantar a voz para ser ouvido. Um Papa que me fez olhar outra vez para a Igreja com olhos de esperança.
Francisco não foi apenas o chefe da Igreja Católica — foi o seu coração batente.
Foi ele que abriu as portas da Igreja a todos os que se sentiam à margem.
Permitiu que casais homossexuais fossem abençoados por padres.
Reconheceu publicamente as pessoas trans como membros bem-vindos da comunidade cristã, com direito ao batismo, ao perdão, à vida sacramental.
Confiou ministérios leigos a mulheres — um passo tímido, sim, mas corajoso num Vaticano ainda tão fechado à equidade de género.
Falou com os pobres. Chorou com os refugiados.
E, até ao fim, implorou pela paz entre a Rússia e a Ucrânia. Não conseguiu ver esse sonho cumprido. Mas lutou por ele com as armas que tinha: palavras, orações, encontros, gestos.
No ano passado, tive a bênção de o ver em Portugal. Vi-o. A sério. Em Cascais. Foi um instante, mas foi real. E hoje, mais do que nunca, dou graças por esse momento.
Hoje chorei. E não me envergonho disso.
As lágrimas também são forma de oração.
E este post é isso mesmo: uma prece. Um agradecimento.
Obrigada, Papa Francisco, por me teres dado de volta um pedaço da fé que pensei ter perdido para sempre.
Obrigada por me mostrares que a bondade pode ter poder. Que o amor pode ser revolucionário.
Que a Igreja pode — e deve — parecer-se mais com o Evangelho de Cristo.
O mundo fica mais pobre sem ti.
Mas tu deixaste-nos mais ricos do que nunca.
Amém.

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