CHOOSE LIFE. CONTINUO A ESCOLHER. 🍒



Há um filme que me marcou profundamente: Trainspotting.

Voltou a aparecer-me no Instagram. A corrida, a música, aquele «Choose life».

O algoritmo costuma sugerir-me botas. Desta vez resolveu ir um bocadinho mais fundo.

Há vinte e cinco anos que vivo livre de substâncias.

Escrever esta frase ainda me faz parar.

Não por vergonha. Pelo caminho que cabe nela.

Não vou dizer quais eram. A minha história pode ser contada sem inventário.

Durante muito tempo, fui uma pessoa com princípios que não conseguia viver de acordo com eles.

Na adição ativa, a distância entre aquilo em que eu acreditava e aquilo que fazia tornou-se enorme.

Tinha explicações. Naturalmente.

A capacidade de argumentação estava ótima. A vida é que não.

Bati no fundo. E pedi ajuda.

Não vou transformar isso numa receita. Nem toda a gente consegue pedir ajuda quando chega lá. E ninguém devia precisar de perder tudo para a merecer.

O meu pai ajudou-me muitas vezes.

Tinha medo por mim. Dizia-mo. E continuava a ajudar.

Hoje penso que talvez o assustasse ainda mais imaginar o que me poderia acontecer sem esse apoio. É a minha leitura. Não posso falar por ele.

Posso contar uma coisa que sei.

Antes da sua última operação, pedi às outras pessoas que saíssem do quarto. Precisava de falar com o meu pai.

Pedi-lhe perdão pelo sofrimento que lhe tinha causado.

E agradeci-lhe por ter sido um pai tão bom para mim.

Aquela conversa foi nossa. Guardo-a.

Depois de ele morrer, fiquei sem o apoio que tantas vezes me tinha amparado.

A minha irmã também tem um lugar imenso nesta história. Mesmo quando precisou de alguma distância, nunca me largou por inteiro.

Há agradecimentos que não cabem numa publicação.

Este é um deles.

A recuperação obrigou-me a aprender coisas para as quais a minha rebeldia não tinha grande vocação: ouvir, aceitar ajuda, assumir responsabilidade e deixar de confundir uma boa justificação com uma mudança de comportamento.

Continuo a ter feitio.

Convém esclarecer isto, para ninguém criar expectativas desnecessárias.

A recuperação fez muita coisa por mim. Tornar-me uma pessoa fácil não constava do programa.

Mas hoje procuro viver de acordo com o que digo que valorizo.

Com honestidade. Com responsabilidade. Com gratidão por quem ficou. E com mais cuidado antes de julgar quem ainda está a tentar sair.

Não tenho orgulho no sofrimento que causei.

Tenho orgulho no trabalho que fiz para viver de outra maneira.

Vinte e cinco anos não apagam o passado.

São vinte e cinco anos de vida que vieram depois.

Com perdas, trabalho, afetos, erros novos e a possibilidade de estar presente para tudo isso.

Choose life.

Hoje essa frase tem, para mim, muito pouco de cartaz.

Tem o rosto do meu pai.

Tem a minha irmã.

E tem-me a mim, aqui, a conseguir contar isto.

🍒

#CantoDaCereja #ChooseLife #25AnosDeRecuperação #AdiçãoSemVergonha #UmaVidaDeCadaVez #Gratidão #Recomeçar







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